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«The Children Act» (A Balada de Adam Henry) por Ilana Oliveira

Até onde a moral (ou o imoral) pode afetar o curso das nossas vidas? A Balada de Adam Henry conta a história da juíza Fiona Maye, em mais um trabalho precioso de Emma Thompson, que vê-se em uma situação complicada ao julgar o caso do menino Adam Henry, menor de idade que sofre com cancro terminal e necessita de transfusão de sangue, mas que se nega a fazê-lo por conta da sua religião.

Baseado no livro homónimo de Ian McEwan, e com argumento feito pelo próprio, esta longa-metragem por vezes desliza em sua própria finalidade: uma mistura de análises das relações intra e intersociais mostra-nos dois lados da moeda, fala-se aqui sobre as decisões internas que uma juíza deve tomar - obviamente humana e passiva de emoções e falhas - ou sobre conjunturas sociais de poderes públicos e relações entre religião e sociedade? Toca também, durante um leve momento, na linha ténue da confusão entre admiração e paixão, com aquela pitada de relação entre senhora mais velha e um jovem. Como um fruto que caiu longe demais de sua árvore, McEwan produz A Balada’ como se não adquirisse a maestria do seu outro consagrado trabalho, Atonement.

A fluidez entre os atos, entretanto, advém de Richard Eyre. Desenvolvida uma realização primorosa e muito elegante, é possível surpreender-se movimentos de camara não feitos por acaso, oferecendo, assim, a todo tempo, uma nova camada à cena observada pelo espectador. Os cenários, dentre eles um hospital, uma corte judiciária, um escritório, uma casa e uma rua, que não oferecem muito à mise-en-scène caso sejam visto através dos olhos de um amador, sempre são utilizados com mestria e deixam um leve ar oitentista no ar.

Porém, o que mais deve ser notado no projeto de Eyre é, na realidade, os seus atores. Emma Thompson oferece mais uma vez um trabalho cheio de energia e desenvolve sua personagem - cheia de sumo a ser extraído - de uma maneira interna, contida, forte, mas ao mesmo tempo confusa e a par das suas decisões, por vezes falhas. Com uma relação claramente desgastada e infeliz com seu marido (Stanley Tucci), a percepção e as reações de Thompson faz-nos repensar quais seriam as nossas próprias caso estivéssemos na mesma conjuntura.

Tucci, diferentemente de Thompson, sofre com o pouco oferecido pelo guião, e oferece-nos aquilo que é possível. Porém, ficamos diante de um Jack Maye com muito potencial para ser mais do que o marido da juíza e professor universitário, a sua falta de camadas empobrece a narrativa e é a responsável por uma das perdas de foco ao longo de A Balada.

Fionn Whitehead, a cargo do - caso isso seja possível - segundo protagonista da trama, interpreta Adam Henry com a inocência do recém-chegado ao mundo adulto. Desde o começo, é possível perceber a utilização dos olhos pelo ator para expressar suas diversas fases, evoluções e dissociações, o que enriquece a sua personagem, impedindo-o que se transformasse em mais um adolescente confuso. Chegando a passos largos em Hollywood (seu trabalho mais recente foi no último projeto de Christopher Nolan, Dunkirk), Whitehead oferece potencial para muitas outras futuras oportunidades.

A Balada de Adam Henry esbanja de uma realização majestosa, com ótimos atores, porém, não encontra o seu tom, e oferece ao espectador uma obra mal costurada e muito provavelmente mal explorada.

Ilana Oliveira



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