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«Girl» por Hugo Gomes

Como um recente programa de culinária, o termo “receita com twist” pode muito bem ser aplicado nesta estreia no universo das longas por parte do jovem Lukas Dhont, que cita a sua anterior curta Corps Perdu (2012) como um corrimão de apoio para um inesperado bailado. Esse, não literal à temática secundária do filme, que funciona ao jeito de uma prolongação “distópica” a Billy Elliot (a diluição de géneros para rompimento das leis embaladas da nossa sociedade, que assumem, acima de tudo, patriarcais), mas na consistência da sua narrativa diurnal, periódica nas fases de um jovem transgénero que se desfila perante o baile da sua autodeterminação.

Assim, sem mais demoras e na viabilidade de chocar o espectador com a “estranheza” do (não)reconhecimento, somos apresentados a Lara (Victor Polster), jovem ansioso pela sua mudança radical (impacientemente ansioso acrescente-se) e com isso seguir o sonho de se tornar bailarina. O que impede é claramente uma certa dissertação inerente, um isolamento emocional por parte da sua inadequação que o afasta dos demais, principalmente da família que abraça a sua causa como derradeira missão ou das paixonetas, tão particulares em verdes anos que surgem como turbilhões identitários.

Tendo em conta a generalidade dos contos transgéneros, o bullying físico-psicológico é algo abandonado por Lukas Dhont. O seu reconto nesses aspetos cada vez mais debatidos e urgentes parte vão em investida direta com as questões sentimentais do protagonista ao invés de focar numa sociedade em repudia perfeita. O que vemos, nessa questão social, é um comunidade aberta e recetiva a essas mudanças fisiológicas e de status, e é através disso que deparamos com outro tormento a transientes, a sua auto-inserção /aprovação.

Lukas Dhont estabelece um quadro-cotidiano desta Lara, embarcando num realismo formal, mas completamente orgânico para com a câmara, ponto que viabiliza as sequências de dança no atelier com uma vibrante sincronia. Obviamente que esta carnalidade da câmara com a ação é fortalecida em efeito à dedicação e exposição do ator e dançarino Victor Polster. É inegável o seu estado de graça, contagiante … aliás, diria antes, transparente e traspassável (a transição funciona como um elo mais abrangente que a temática sexual, a ligação crucial entre espectador e filme / nossa realidade com a realidade filmada). A sua sensibilidade, a sua melancolia desgastante e por fim a sua dor, simples processos de fenomenologia, pontuam como triunfos nesta relação de confidências entre realizador e ator.

Cumplicidades que nos guiarão cegamente para o mais cruel dos desfechos. Lembram-se das “receitas com twist” ... pois bem ... o que aparentemente era mais um exercício de quotidiano encenado, revela-se numa provocação. Em seu jeito, uma prank, sob o gesto de abanar consciências, mais que simples éticas sociais, a da natureza inconformista e inquieta do ser humano, o impulsor desta jornada de sentidos e sentimentos. Uma das grandes estreias no “cinema para grandes”, Lukas Dhont é [indiscutivelmente] um nome a seguir.

Hugo Gomes



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