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«I Am Not a Witch» por Hugo Gomes

O título entra em cena sob pesarosas cadências como uma declaração de força, um ativismo pessoal, o punho fechado da autoestima se tratasse (I – Am – Not – A – Witch), isto, após uma sequência invulgar que coloca o espectador ocidental, conformista, de mundo feito e reconhecido em choque com uma sobrerrealidade. Essa, tão irreal que confunde-se como uma distopia fantasiosa do absurdo, porém, este tipo de ritual é inspirado em “factos verídicos”. Tais palavras que servem de um totalitarismo pensante na indústria fílmica, aqui inteirado como sugestão para um drama, por si reconhecível a estas audiências privilegiadas, a emancipação de uma criança … ou pelo menos em teoria.

Mas afinal o que de tão ridículo encontramos nesta primeira longa-metragem de Rungano Nyoni? Desde uma sociedade ainda regida pela tribalismo no interior da Zâmbia, até ao preconceito alicerçado ao mito da Bruxa. Longe da imagem ocidental de um verrugosa mulher com pactos faustianos e de má índole, as “bruxas” nascidas nesta savana são “seres” fora do condição humana, temidas e igualmente veneradas perante um estranho método de domesticação. “Não se deixem enganar, ela não é um ser humano, é uma bruxa”, avisa o Presidente da Câmara numa emissão televisiva. Homem de alto cargo politico motivado por crenças ancestrais que dilui com “fé do primeiro Mundo”, a capitalização. Um desses atos de ganância, a apresentação do seu “novo” animal de estimação, Shula (Maggie Mulubwa), uma menina de pais desconhecidos, abandonada à sua sorte após ser acusada de “bruxaria”. Sabe lá a rapariga o que isso é!

Após um julgamento inacreditável, onde as provas são mais escassas que as loucuras proferidas pelos cidadãos de uma vila longínqua, mas a única “casa” conhecida por Shula, a criança que da hora para a outra torna-se uma não-criança. Ou diria antes um não-humano, uma “criatura algo mitológico” – a bruxa - o seu novo estatuto.

I Am Not A Witch responde com um realismo seco, um episódico retalho no intuito de preencher uma ideia silenciosamente panfletária, impondo choque cultura e racional para as audiências de “outras realidades”. Sim, diríamos que Nyomi cria e recria um filme bem aos moldes do mercado world cinema, possível interação com este meio, infelizmente, nunca respondendo com exatidão ao ativismo presente no título garrafal. É com humor e com humor se paga, contorcendo esta realidade numa caricatura plena, como o caso de Shula que usa os seus poderes de “vidente” para pedir auxilio às “seniores” bruxas através de um telemóvel.

São sequências como estas, impagáveis, que funcionam como momentos-chave de uma tragicomédia onde o lado humorístico encontra-se no nervosismo do nosso riso, aquele, envergonhado perante um situação incapaz de lidarmos. I Am Not A Witch está longe de ser um grande filme, mas está perto de nos surpreender pela sua temática bizarra.

Hugo Gomes



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