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«Les Gardiennes» (As Guardiãs) por Hugo Gomes

A adaptação do livro de Ernest Pérochon remete-nos a uma Guerra de sombras, invisível e igualmente furtiva. Depois dos homens partirem para as batalhas longínquas, as mulheres permanecem nas suas residências, mantendo, para além do negocio familiar, as réstias do quotidiano em “tempos de pacificidade”.

Xavier Beauvois é dotado em dar visibilidade a conflitos invisíveis, mesmo que neste Les Gardiennes a questão do não-visível é por vezes traída pela dimensão onírica, “prisões traumáticas” nos retornados, cujo espirito continua refém dos horrores da Guerra infestada. Contudo, é na reconstituição histórica e sobretudo social que o filme vinga como um diálogo do passado em relação ao presente dominado por movimentos e ativismos - é a causa das Mulheres em inverter o enganado estatuto de “sexo fraco” e a confirmação da sua importância para o funcionamento das estruturas sociais.

Todo este discurso parece saído de fora, como um estrangeiro que observa a cultura de outrem, mas é nessa “estranheza” perante a força destas mulheres que o filme adquire um tom quase lisonjeador, admirando de perto como de longe uma distorcida alusão às comunidades de O Senhor das Moscas (ou diríamos as Amazonas do século XX). Este retrato pseudo-bélico é trabalhado não só no sentido das personagens, como do cenário criado. Sim, por vezes Beauvois abdica do lado ficcional para orquestrar um ensaio de História recontada, desde os avanços tecno-agrícolas que faz questão de inserir em prominentes travellings (paralelismo com o mesmo processo de O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira) até às tendências bucólicas desta outra-França.

Mesmo soando a rigor nessa “réplica de costumes”, Les Gardiennes expõe uma faca de dois gumes, é simplista (ora que bem, ora que infelicidade). Essa modéstia, talvez melhor adjetivo, implica um tratado de cortesia entre realizador e a sua matéria, sem nunca transgredir, nem sequer atraiçoar as mensagens e moralidade aplicadas. Se é a força das mulheres que queremos mostrar, é a forças das mulheres que terão (manifestada desde a veterana Nathalie Baye como topo de uma hierarquia improvisada, em contraste pela novata Iris Bry em vestes de marginalidade).

Contudo, a técnica encontra-se presente - realçamos a fotografia de Caroline Champetier (hipnotizada pela secura dos campos e da poeira emanada pela terra fértil) – o espelho-refletor desta ruralidade e as aptidões brutas de um campestre a servir de invocação aos primórdios do Cinema. Como sabem, ELE nasceu como captação da vida de “ninguém”, do trabalho árduo desses “escravos da terra" e das ritualizações hoje semi-extintas pela modernidade dos nossos meios.

Hugo Gomes



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