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«Dear Dictator» (Querido Ditador) por Jorge Pereira

O cinema norte-americano anda há anos há procura do seu novo Mean Girls e este Dear Dictator é mais uma promessa falhada que apesar de a espaços nos surpreender pelo arrojo e absurdo em tempos politicamente corretos, acaba derradeiramente por ser sufocado num entroncamento de indecisões e num sentimentalismo e moralismo que contrasta com a audácia da proposta.

Os tempos em que ser rebelde era fumar às escondidas, roubar umas roupas numa loja, ou graffitar uma parede parecem estar ultrapassados para a nossa adolescente de serviço, Tatiana Mills (Odeya Rush), uma jovem que encontra num ditador sul-americano (tipo Fidel Castro) o seu pen pal, como que partilhando similaridades nas suas vidas complicadas - ela num liceu, vítima das meninas populares; ele no seu país, "vítima" dos rebeldes.

Os tons de farsa inicialmente dão esperança para um filme autoconsciente da sua proposta bizarra, mas após alguns desvarios cómicos e negros - onde pontuam piadas como "Mãe, ele não é nenhum velho pedófilo, mas apenas um ditador" - cai-se no erro de transformar tudo numa comédia familiar, onde o nosso ditador, exilado na garagem da miúda, acaba por ajudar mãe (Katie Holmes) e filha a terem uma melhor relação.

A própria construção das personagens mostra-se apressada, como se apenas fossem moldadas para funcionarem em modo de sketch cómico ou dramático. Holmes, que se apaixona pelo seu patrão, o qual tem um fetiche por pés, consegue entregar a sua prestação mais despretensiosa e rebelde numa década, interagindo com a sua filha com uma verdadeira química, mais próxima de uma irmandade problemática, que do sentido matriarcal. Já Odeya agarra o papel de uma jovem que não sabe bem o que quer, mas é fustigada por um guião demasiado indeciso naquilo que quer ser. Quanto a Caine, e apesar de ser um ator que não tem de provar o seu valor, sente-se que não anda um pouco perdido, pois apesar de ter naturalidade dentro do absurdo na forma como reconhece ter torturado e matado pessoas (algo quotidiano), soa sempre a um britânico a fazer de ditador sul americano exilado nos EUA. Bizarro.

Resta ainda falar de Jason Biggs, perdido num professor que tenta fazer ver a jovem que não é bom idolatrar ditadores. Presente como figura quase paternal e moral num registo de comicidade (uma espécie de comic relief dentro de uma comédia), Biggs surge igual a si mesmo e à sua carreira, ou seja, não segura com convicção o seu professor.

Uma nota ainda para a banda-sonora do filme, um misto pop e punk que canaliza o espectador para a personalidade "rebelde" da protagonista, mas nada nisto consegue elevar projeto para mais que uma boa ideia estragada por consecutivas más decisões do argumento.


Jorge Pereira



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