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«Je ne suis pas un homme facile» (Eu não sou um homem fácil) por Jorge Pereira

No rescaldo do caso Weinstein, dos movimentos #MeToo, #TimesUp e #BalanceTonPorc, o primeiro filme francês da Netflix - Je ne suis pas un homme facile (Eu não sou um homem fácil) - tem o mérito de ser mais ousado e menos esquemático do que as comédias do género Body Swap (do qual ele se aproxima), e embora caia nos clichés cinematográficos dos romances, fá-lo sempre com ironia e sarcasmo, entregando um projeto curioso e com bons momentos de humor e de reflexão tímida.

Damien é um machista que trabalha numa agência publicitária e cuja forma de agir diária passa por inúmeros piropos e tentativas de engate ao sexo feminino. Um dia, e após um flirt de rua que corre mal, choca contra um poste, ficando inconsciente. Quando desperta, o mundo que conhecia desapareceu. As mulheres são o sexo forte e ocupam a maioria das posições de poder. Não se luta pelo feminismo, mas pelo masculinismo, já que se vive numa sociedade ginocrata onde os homens são os frequentemente assediados, têm empregos de segundo nível, são muitas vezes domésticos a tomar conta dos filhos e têm de lutar o dobro para sobressair. É na verdade um mundo invertido, o reverso do sexismo, uma crítica de vez em quando mordaz ao pré-establecido que muitos assumem como a ordem natural das coisas, sem perceber que existe uma desigualdade gritante e cavernosa.

Agindo como crítica curiosa aos tempos que correm à condição da mulher e ao homem na sociedade, o filme funciona igualmente como comédia romântica, não caindo no seu último terço na previsibilidade que se esperaria, embora seja demasiado aberto para satisfazer totalmente (sequela?).

Quer Marie-Sophie Ferdane, no papel de uma escritora poderosa e musculada, como Vincent Elbaz, que se acaba por traduzir como o seu "muso" (reparem que não existe masculino desta palavra), cumprem bastante bem os seus papéis, com a primeira a dominar com a sua presença toda a ação e eventos e o segundo a oferecer momentos de comédia com destreza. Com um pouco mais de sagacidade e uma menor dependência do humor de situação aqui e ali, podíamos estar aqui perante um objeto de culto.


Jorge Pereira

 



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