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«Beirut» (Beirute - O Resgate) por Hugo Gomes

Entramos em Beirute, capital do Libano, sob um temporário cessar de fogo, e as primeiras sequências deste novo filme de Tony … peço desculpa, Brad Anderson, apresentam uma localidade algo cosmopolita regida pelo preconceito contra a Palestina (não é por menos que o filme abre com uma piada sobre tal), e sob o calor dos atentados de Munique em 1972. Aqui, suspiramos, vamos assistir a mais uma propaganda amiga das causas israelitas, a agenda americana do costume para permanecer intenso o fogo das recentes proclamações de Trump (para quem não se recorda foi algo como “Jerusalém é a capital de Israel”).

Mas o que parecia ser culturalmente ofensivo, ou por outras palavras, o Médio Oriente visto por yankees, converte-se a meio do arco narrativo numa muita negra sátira em relação à situação de Beirute, cidade em pleno confronto pela sua dominância. Aclamamos sátira, porque o filme parece rodar num sentido tão caótico que chega a soar a comédia da mais negra possível.

Estamos a falar de uma negociação com “terroristas”, mais concretamente na troca de um refém norte-americano, cujos segredos poderão abalar organizações dos dois lados do Mundo, por um dos autores dos atentados de Munique, situação que leva a Israel a tomar controlo de toda a operação. Por palavras mais diretas, tudo é resumido a uma confusão coletiva, onde cada ponto leva-nos a outro, ou cede a mais um.

Nesta barafunda escrita por Tony Gilroy, autoria que contamina o trabalho de Brad Anderson - que mimetiza a câmara a ombro e a sua perspicácia politica - parece que estamos a chegar a uma crítica plena, ambígua e igualmente ácida que atinge tudo e todos, não deixando reféns nem ostentando misericórdia.

Contudo, a queda é imensa quando se trata de resolver o ponto fulcral – o desfecho. E é nesse sentido que Beirute perde a sua pujança, aliás, a sua coragem, castrada por uma bandeirinha ao vento (o espectador tem noção qual é o estandarte que refiro) e pela footage final que remete ao nosso maior medo: a “propagandice”, a paz idealizada por norte-americanos, que só eles acreditam.

Faltam “cojones” para seguir até ao fim com a sua ambiguidade e há que dar a mão à palmatória, visto que um realizador tão americanizado como Peter Berg captou tal sensação no seu twist final em The Kingdom (O Reino), até porque ocidente e oriente, por mais diferentes que sejam, são iguais. Concluindo e resumindo, nem Rosamund Pike nos salva do engodo que este Beirute realmente é.

Hugo Gomes



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