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«B-Movie: Lust and Sound in West-Berlin» por Roni Nunes

Os realizadores Jörg Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange utilizaram como base um extenso trabalho de filmagem "in loco" do músico britânico Mark Reeder, feito durante os anos 80, para um ensaio sobre a cultura da cidade.

B-Movie: Lust and Sound in West-Berlin é um filme sobre memórias. Para quem tenha vivido muito longe da cena underground de Berlim Ocidental nos anos 80 mas adorava música indie, a conexão é pacífica. Os jovens do século XXI terão de se contentar com a evocação de um imaginário que lhes poderá parecer de outra galáxia. Ou não?

É muito fácil cair na nostalgia. Será inevitável? O inglês Mark Reeder, que "respirava" música antes de pegar numa câmara e filmar tudo o que encontra pela frente na cidade alemã, fala de Berlim conectada com Joy Division/New Order. Bernard Summers e companhia aparecem por lá "em pessoa"; outro momento precioso é a aparição de Nick Cave, enquanto Blixa Bargeld é uma das figuras frequentemente encontradas pelos clubes subterrâneos onde criaturas tremem e revelam-se como germes sob a luz repentina.

Isso tudo às vésperas de uma longeva parceria: os Bad Seeds, como se sabe, vivem e chutam. Até Christiane F. (Felscherinow, no mundo cá fora) circula por ali; Keith Haring, por seu lado, faz grafitis no muro infame. Já enquanto presença fantasmagórica mais de uma vez evocada surge David Bowie – que parece assistir orgulhoso aos filhos nascidos ou adotados de uma cidade que foi um dos primeiros a desbravar.

Reeder tem o fascínio do estrangeiro enquanto o filme tem a melancolia do tempo passado. Ficam sempre as ruínas - que na verdade são apenas transformações, metamorfoses de uma vida que será outra coisa - neste caso o mundo dos DJs e da cena "trance" em que o próprio foi se meter no início dos anos 90.

Os transes eletrónicos não são o fim, mas outro começo: antes deles os Einstürzende Neubauten de Bargeld andaram tocando sob as pontes, fazendo excursões pelas fábricas e ajudando a inventar o "rock" industrial; estavam em sintonia com os ingleses (os da cena de Sheffield, por exemplo), mas com algo diferente a propor. Num assinalável assomo de humildade, um músico de uma banda local admite: os Neubauten podem fazer sucesso em Inglaterra porque fazem algo novo, enquanto "o que eles fazem os Buzzcocks fazem melhor".

O inglês sai de Manchester: parece inacreditável que alguém, num dos períodos mais prolíficos da história do rock inglês (a Manchester do pós-punk do final dos anos 70) se sinta encantado a ponto de transitar por dias a fio até uma cidade desconhecida em busca de outra música que não a da sua cidade. Poderia ser estranho mas é muito normal: não podemos desejar aquilo que já temos, não podemos sonhar com aquilo que está ao nosso lado.

E com o que sonha Reeder deixa de ser, na mão do trio de realizadores, uma fantasia para ser a sua festa móvel – para utilizar o título pensado por Ernest Hemingway para descrever a Paris que não viveu (da Belle Époque) – numa nostalgia retroativa a qual Woody Allen compreendeu lindamente no estupendo Meia-noite em Paris. Começar nas paredes sujas do muro de Berlim dos 80 e terminar na França do século XIX não é um ato de autocondescendência gratuita: a melhor forma para B-Movie: Lust and Sound in West-Berlin fazer sentido é enquanto catalisador de reminiscências pessoais.


Roni Nunes



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