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«No Intenso Agora» por Aníbal Santiago

A melancolia apodera-se de forma amiúde de No Intenso Agora, ou não estivéssemos diante de um documentário que nos coloca diante do desfazer dos sonhos e do fracasso de algumas revoluções, bem como pelos efeitos da passagem do tempo e das recordações. O ponto de partida é algo de muito pessoal – nomeadamente os vídeos amadores elaborados pela mãe de João Moreira Salles, com o realizador a saber conciliar essa faceta imensamente particular com a abordagem de temáticas mais abrangentes. Esses filmes familiares remetem para uma viagem que a progenitora do cineasta efetuou à China, em 1966, durante o primeiro ano da Revolução Cultural Chinesa, com Salles a mesclar a visão da progenitora com os textos de Alberto Moravia e alguns comentários muito próprios que elabora sobre o período.

Os livros vermelhos na mão dos jovens, o culto quase religioso dedicado a Mao, as tonalidades encarnadas que rodeiam os cenários e a iconografia comunista fazem parte deste espaço que causou algum espanto na mãe do realizador, sobretudo por ser um país oposto a tudo aquilo a que estava habituada – algo exposto nas imagens que captou e no discurso do cineasta. Ficamos perante o fulgor da Revolução Cultural Chinesa e de uma certa sensação de amargura com traços de melancolia por sabermos o seu desfecho, com este sentimento a ser transversal aos outros episódios históricos retratados ao longo do filme. Salles reúne acuradamente filmes amadores, fotografias, imagens de arquivo e discursos da rádio para abordar uma série de acontecimentos relacionados com o Maio de 68, a Primavera de Praga, os conflitos entre a ditadura militar do Brasil e o movimento estudantil e a Revolução Cultural Chinesa, sempre de forma dinâmica e a colocar em diálogo os eventos que marcaram este período.

O diálogo entre as imagens e os episódios históricos está muito presente ao longo de No Intenso Agora, com o cineasta a também entrar nesta conversa. Os seus comentários acompanham regularmente as imagens selecionadas, seja para dar informação meramente descritiva, contextualizante ou extremamente pessoal, ou para questionar os vídeos e sublinhar que estes transmitem mais do que o escopo pretendido por quem filmou os mesmos. Os enquadramentos não mentem, com as imagens a flutuarem de acordo com o rumo dos acontecimentos, algo reforçado pelo cineasta em comentários pertinentes. Note-se os vídeos de arquivo e filmes amadores sobre o Maio de 68, com os revolucionários, tais como Daniel Cohn-Bendit, a aparecerem inicialmente em destaque, embora, com o avançar do tempo comecem a ser enquadrados como figuras secundárias, ou a forma como os negros são quase sempre inseridos na incómoda posição de figurantes.

Os eventos que envolveram o Maio de 68 e o período imediatamente posterior surgem como uma parte relevante de No Intenso Agora. Ao longo do documentário acompanhamos o entusiasmo dos manifestantes, a violência que envolveu o conflito entre os mesmos e as autoridades, a falta de um plano "pós-revolução", a forma sagaz como Charles de Gaulle conseguiu estancar as revoltas e utilizar os meios de comunicação social a seu favor, entre outros episódios. Também o final da Primavera de Praga é exibido, com os vídeos amadores a surgirem como recursos preciosos para o cineasta expor a invasão soviética e o papel crescente da censura, bem como a forma como estes episódios eram filmados. Das imagens da então Checoslováquia sobressaem os trechos do funeral de Jan Palach, pontuado por momentos de acentuada comoção e uma sensação de impotência. Também o funeral de Édson Luís é apresentado, bem como o de Gilles Tautin, com estas mortes a mexerem com o povo e a assinalarem em certa medida o esfumar das revoluções.

No Intenso Agora capta com acerto a atmosfera fervilhante da época, expõe informação dotada de relevância e explana alguns fragmentos de um período recheado de peripécias, utopias e alguma inocência, com Salles a envolver-se nas entranhas de um tempo em que tudo parecia possível. É um envolvimento que percorre o fervor que aglutina multidões, os impulsos quase irracionais e irrefletidos, até chegarmos à desilusão dos sonhos que se desfazem perante o crepúsculo das revoluções, com No Intenso Agora a penetrar no interior da alma destes eventos e a estimular a reflexão sobre os mesmos. No final, ficam as emoções intensas que Salles recolhe e transmite, os discursos e os episódios marcantes, as imagens que contam com uma imensidão de significados, as dores dos fracassos e a nostalgia de algo que se perdeu, tudo reunido ao longo de um documentário imensamente recomendável.


Aníbal Santiago



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