Menu
RSS


«Dog Eat Dog» (Como Cães Selvagens) por Duarte Mata

Se um dos aspetos que marcou a Nova Vaga francesa foi a transição de um grupo de críticos cinematográficos para os cargos de realizador, o mesmo não se poderá dizer da Nova Hollywood, o equivalente estadunidense dessa corrente cinéfila. Uma rápida consulta dos seus nomes mais marcantes acaba por nos levar a apenas dois resultados: Peter Bogdanovich (que, segundo o próprio, exercia uma atividade mais jornalística do que crítica) e o agora retornado às salas de cinema portuguesas, Paul Schrader.

Filho de um casal calvinista que o privou do cinema na sua juventude, Schrader só conseguiu ver o primeiro filme aos 17 anos e com o doce sabor do pecado (“Other college kids had to vandalize government buildings. All we had to do to rebel was go to movies.”, diria mais tarde). Tal levou a que sua cinefilia, apesar de tardia, se tenha construído de uma maneira mais intelectual do que emocional, a partir das referências que lhe foram fornecidas na faculdade (Bresson, Dreyer, etc.). Daí que nos filmes escritos por si, o espetador se sinta incomodado com a imperfeição e falta de apego aos seus protagonistas, existencialmente perturbados e em rumo autodestrutivo, mas redimidos na derradeira cena que justifica o longo processo de violência a que haviam estado submetidos (haverá cineasta que mais vezes tenha refeito o final de Pickpocket (1959)?). Foi assim com o seu argumento mais célebre, Taxi Driver, mas também com quase toda a filmografia que construiu enquanto realizador.

No entanto, o seu trabalho enquanto cineasta viu-se ofuscado pelo rótulo de “o argumentista de Scorsese”. Mas afirmamos, sem hesitações, perguntar se Schrader vingou alguma vez ou não enquanto realizador é perfeitamente injusto e resultado de um processo de falta de divulgação do trabalho do cineasta americano, ao longo dos anos. Os grandes filmes de Schrader existem, simplesmente estão à espera de serem (re)descobertos. É o caso de 3 obras fabulosas: Hardcore (A Rapariga da Zona Quente, 1978), filme que obriga o espetador de classe média a confrontar o seu pudor, através da intriga de um pai disposto a ir até às zonas mais obscuras da indústria do sexo, em busca da sua filha, tornada atriz pornográfica; o vagamente bressoniano American Gigolo (1980), um dos melhores exemplos de um filme americano da década de 80 a viver da composição da imagem e do enquadramento do corpo do ator no cenário; e o freudiano Affliction (Confrontação, 1997), onde um homem com uma infância traumática alicerçada numa relação abusiva com o pai, entra numa jornada obsessiva e suicidária para provar a ocorrência de um homicídio na sua cidade.

Dog Eat Dog, o seu filme acabado de estrear, não estará ao nível destes seus 3 apogeus, mas mantém-se coerente em alguns aspetos com os mesmos e prova que o cineasta não perdeu “o toque”. Logo na extraordinária cena de abertura, em garridos turquesas e azuis, observamos Mad Dog (a cargo de um Williem Dafoe muito, muito peculiar) com alucinações a cometer o assassinato da sua mulher. A estranheza no desenrolar da cena e o ambiente artificioso onde se passa são o suficiente para definirem a base do filme como um thriller fortemente influenciado pela pulp fiction, a partir do qual se construirá. Mas não só. As referências a Humphrey Bogart, a fotografia low-key em cenas-chave, o recurso circunstancial ao preto-e-branco, mais a própria intriga (3 ex-reclusos que se unem para um último golpe) levam a que o filme esteja mais perto de se considerar um exercício raro e visualmente valorizável de neo-noir do que, propriamente, mais uma produção do género de suspense.

É absolutamente notável o cuidado com que Schrader apresenta o espaço e a sua geografia de uma maneira formalmente interessante para a audiência, no começo de cada cena. Estão bastante presentes os tracking shots das personagens (muitas vezes, apenas figurantes) a atravessarem os cenários em que se inserem, guiando a audiência até à ação; ou então através de movimentos hemicíclicos e verticais da câmara. São raros os cineastas americanos de hoje que optem por esta progressão topográfica pelo “movimento” num espaço definido exclusivamente a partir do interior.

E se isto não chega, basta olhar para o final, prova do grande cineasta que Schrader ainda consegue ser, onde a religião e o cinema se unem para um dos momentos mais catárticos que o realizador filmou até hoje. Saudades do noir, saudades da Nova Hollywood. Que saudades sentíamos de um Schrader assim.

Duarte Mata



Deixe um comentário

voltar ao topo

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos