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«The Challenge» por Roni Nunes

No Antigo Regime, e daí para trás, só os ricos mereciam ser retratados. Na pintura, na literatura, na História, os aristocratas, os mercadores/banqueiros, os altos dignatários da igreja eram dignos de registo: o povo desvaneceu-se em séculos de invisibilidade. No século XIX, as coisas começaram a mudar.

O cinema é produto da 2ª Revolução Industrial, e sempre falou dos pobres. Seja na fantasia, seja no realismo. O de autor, em particular, chafurda há décadas na vida dos desfavorecidos. Fernando Meirelles, depois de um impecável registo da favela (Cidade de Deus) prometeu um filme sobre os muito ricos – cuja visão seria igualmente brutal e chocante. Por alguma razão nunca o fez – como tampouco outros: no cinema realista, os detentores do dinheiro foram remetidos a um perverso e confortável silêncio.

The Challenge fala de falcões. Eles têm direito à manicura e um naipe de gente que vive para cuidá-los. Paga-se por um exemplar por 22 mil euros num leilão. O Qatar é uma das ilhas da fantasia do Médio Oriente – a terra dos “sheiks”, que fazem o deserto reluzir com suas carrinhas topo de gama. Um deles tem uma lamborghini; com ele viaja o seu jaguar (o animal) de estimação – talvez a mais impressionante mostra simbólica de poder.

O italiano Yuri Ancanari expõe em museus e é reconhecido internacionalmente no universo do videoarte. The Challenge é a sua longa-metragem cinematográfica de estreia. Planos fixos, panorâmicas, cores exuberantes, cenários interiores cujos luxos falam mais do que as palavras: o retrato visual da opulência – filmado como álbum de família, com elegância a condizer.

Quanto à falcoaria, esta era documentada na mais remota Antiguidade. Consiste em lançar um falcão treinado para, com a ajuda das preces a Alá, destroçar um pobre pombo. Os árabes, há muitos séculos, são dos seus mais entusiasmados praticantes e continua ser a forma de desporto favorito de uma elite que não tem que prestar contas a ninguém. Enquanto o petróleo existir, eles lá estarão; fora da “petrolândia”, a escumalha despedaça-se em statements suicidas pelo Ocidente afora – ao passo que estes últimos acham justificações esdrúxulas para chacinar sociedades em busca do ouro negro.

A falcoaria, tal como a opressão, está destinada a perpetuar-se no tempo.

 

 

Roni Nunes



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