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«The Other Side of Hope» por Duarte Mata

Extraordinário o regresso do finlandês Aki Kaurismäki à sua Trilogia Portuária (que iniciou em 2011 com Le Havre) neste novo The Other Side of Hope, filme que aborda a integração dos refugiados sírios nesta Europa ainda atormentada pelo racismo. A intriga fala-nos de dois indivíduos (um refugiado e um vendedor ambulante de camisas) que juntos abrem um restaurante em Helsínquia, ao mesmo tempo que o primeiro tenta reencontrar a irmã desaparecida.

E fá-lo de uma maneira tragicómica, com aquele humor sarcástico e seco que lhe fica tão bem, expondo cada cena em planos médios num ambiente de cores vivas, quase saídas de álbuns de banda-desenhada. Ver um filme de Kaurismäki é como viajar a um cinema de outro tempo. É a magia que está presente no seu realismo; a capacidade de fazer crer num mundo de solidariedade e autêntico humanismo, mesmo quando tudo não poderia ser mais caótico; e é sentir a liberdade com que filma e com o máximo domínio da cena... É tudo de um classicismo tão saudoso (afinal, estamos a falar do único filme que foi exibido em 35 mm da secção competitiva) e, no entanto, tudo tão fresco e com o doce sabor a novidade.

Aquele restaurante é o país que a Europa precisa, um asilo para todas as nacionalidades, capaz de garantir uma harmonia em comunidade e sincera cooperação. Temos um sírio, mas empregados de etnias germânicas, que tornam o estabelecimento, sucessivamente, num local para clientes nórdicos, indianos, japoneses... e, embora nunca seja explicitado, a dada altura o dono do mesmo cita o solilóquio de Shylock no Mercador de Veneza o que é um forte indício de uma provável etnia hebraica. E depois, cada concerto de Rock n' Roll, cada plano americano com os atores de perfil para a câmara, está lá tudo o que é expetável num filme do finlandês, associado a um propósito político relevante e atual que torna o esforço ainda mais bonito.

Encontramo-nos com o cineasta e os seus dois protagonistas na melhor das conferências de imprensa que assistimos na Berlinale e que transcrevemos aqui apenas parte. Entram no auditório, com o realizador a fazer vénias gozonas à imprensa que lhe aplaude unanimemente. Com o seu tom cínico e a fumar um cigarro eletrónico, faz da conferência um espetáculo de comédia e, simultaneamente, uma manobra ativista. Confrontam-lhe com as palavras que disse sobre pretender tocar a audiência com o filme. Este replica, num tom deliciosamente sardónico e pouco egocêntrico "Quando disse isso estava a ser modesto. Quero é mudar o mundo". O auditório ri-se e prossegue, desta vez, num tom mais sério "A falar seriamente, Renoir fez A Grande Ilusão como tentativa de parar a 2ª Guerra Mundial. Não resultou porque o cinema não tem essa influência. O que quero mostrar às três pessoas que forem ver este filme é que hoje são outros, mas amanhã podem ser eles". E consegue. E muito, muito bem.

É certo que, nos últimos anos, os vencedores do festival de cinema recebem os galardões máximos essencialmente por uma questão de temática política do que, propriamente, mérito artístico. No caso de Kaurismäki a qualidade com que ambos são apresentados encontram-se no máximo que lhe é permitido. Será que sairá daqui o vencedor? Esperemos que sim. Não há ninguém que mereça mais do que ele.

O melhor: O retorno em grande forma de Kaurismäki.
O pior: Nada a apontar.


Duarte Mata



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