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«Moonlight» por Duarte Mata

De alguma forma inexplicável, a Academia tem vindo a adorar os temas sérios abordados de uma maneira otimista e aligeirada o suficiente para serem consumidos pelas grandes massas. Foi assim com o Holocausto em A Lista de Schindler, a pobreza em Quem Quer Ser Bilionário? ou a esquizofrenia em Uma Mente Brilhante. Dessa lista poderá constar agora o mais recente filme de Barry Jenkins, Moonlight.

É um retrato desonesto sobre um miúdo negro que cresce no meio do mundo da droga. “E desonesto porquê?”, dirá o caro leitor indignado com o crítico reacionário. Ora, poderá alguma vez acreditar-se num meio assim, onde as únicas substâncias psicotrópicas que se veem a ser tomadas são charros ou onde não há uma mísera marca de agulha nos braços de todos os supostos toxicodependentes que vão aparecendo? Dito de outra forma, este “retrato social” não será tão violento como um churrasco com amigos da faculdade? Mas não nos fiquemos por aqui. É olhar para o caso de Naomie Harris que ao representar a mãe do protagonista (viciada, obviamente) fá-lo com a psicologia de uma criança. Mas uma criança histérica, daquela cuja birra implora por um Óscar como chupeta. Compare-se isto a A Vida Não é Um Sonho e veja-se como não há nada da frontalidade crua, seca, mas, acima de tudo, orgânica que Aronofsky tinha.

O tratamento do espaço é terrível, mesmo anti-cinematográfico, onde (para além de tudo ser trazido para primeiro plano, não havendo qualquer interesse na profundidade de campo) este mal é usado para conferir espessura dramática na narrativa, iludindo o espetador quanto à passagem do tempo. Referimo-nos a uma estranha preferência por tracking shots que conferem um suspense quase sempre inútil. Logo na primeira cena, onde o mero cumprimento entre dois dealers é filmado como se fosse uma cena de ação cheia de tiroteios. Ou então os erros no tratamento dos brilhos provocados pelas lentes da câmara e que nada contribuem para o aspeto estético da obra. Encenação necessária ou mero exibicionismo do realizador? Diga-nos você.

O argumento é maniqueísta ao seu melhor, com um protagonista muito bonzinho, mas com uma infância muito dura, proveniente da falta de afeto materno e do bullying do colega ao lado (ah, esses malvados que não pensavam noutra coisa a não ser desgraçar a vida ao menino). Como se não bastasse, a maioria dos colóquios são em torno do amor, em diálogos absolutamente irrelevantes, mas ditos daquela maneira como quem aprecia um prato gourmet, atribuindo um ritmo forçadamente lento (até mesmo soporífero) ao filme.

O cinema está a morrer. E filmes como Moonlight serem premiados só servem para tornar o rigor mortis mais reconhecível. Não fosse o burburinho dos Óscares e em Portugal nem chegaria a estrear. Nenhum plano memorável, nenhuma cena que nos tire o fôlego. Apenas mais um daqueles consensos “aclamados universalmente” (que é como quem diz, pela crítica norte-americana) que não leva a lado absolutamente nenhum. Um dos piores filmes do ano, independentemente das estatuetas que ganhe.

O melhor: Um breve tracking shot que leva à transição da 2ª para a 3ª parte.

O pior: Péssimo uso do espaço, ritmo lento, realizador exibicionista, argumento maniqueísta e desonesto.

Duarte Mata



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