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«Wild» (Selvagem) por Duarte Mata

Da seleção de 7 filmes em que constou a 1ª iniciativa da Scope 100 (iniciativa europeia onde 100 cinéfilos de cada país escolhem o filme que ganha distribuição nacional) Wild de Nicolette Krebitz foi, de longe, o mais polarizador e, talvez por isso, o que merecia ter ganho em Portugal (o vencedor não é mau, mas recai num decorativismo sorumbático do qual o filme alemão nunca se aproxima). É então pelas mãos da KINO que é dado a conhecer à audiência portuguesa e, quem sabe, talvez conquistar o palmarés que merece.

Ania é uma rapariga de cerca de 20 anos, pusilânime e conformada com os abusos que sofre no trabalho pelo patrão. Um dia, encontra um lobo adulto e torna-se o seu principal objetivo adotá-lo. Após a captura do mesmo e respetiva criação em cativeiro na sua casa, começa a adquirir comportamentos primitivos e “selvagens”, que a levam a manifestar a sua natureza intrínseca de fera indomável, abolindo todas as normas sociais que até ali cumpria escrupulosamente.

De uma elevada leitura alegórica, onde o niilismo serve de consolo e escapatória derradeira ao que é visto como o status quo civilizacional superficial e incoercível, Krebitz faz um retrato direto sobre a anarquia, rejeitando ligeirezas para contar a sua história (e onde se inclui uma cena explícita de zoofilia). A sua beleza obscura, feita de uma fotografia e cenários onde predominam o negro e o branco que lutam entre si para dominar o espaço, tem algo de tão atrativo quanto de ameaçador. A realização é de uma imprevisibilidade assustadora, onde o argumento é abnegado em prol da força das suas imagens para explicitar o desenvolvimento psicológico da personagem. O cinema também é isto: provocar uma reação em quem o contempla, fazer com que o espectador abdique da sua passividade mundana e contagiosa, mas sempre (e é aqui que Krebitz se destaca de cineastas com intenções semelhantes) de uma maneira honesta e não gratuita.

É, no entanto, a atriz Lilith Stangenberg quem talvez seja mais merecedora de elogios. Num desempenho que, curiosamente, parece ser uma prolongação do retrato que a portuguesa Kika Magalhães fez em Os Olhos da Minha Mãe (a estrear em fevereiro), Stangenberg transforma a atitude blasé inicial (até mesmo autista) de Ania, numa representação vigorosamente corpórea, de olhares e posturas gradualmente lascivas. É o id a triunfar, inevitavelmente, sobre o superego, um novo Dr. Jekyll and Mr. Hide, mais ambíguo e isolado na sua personagem.

Wild faz tudo isto muito bem. A originalidade que acarreta, as questões que levanta sem fornecer respostas e a vontade de correr riscos fazem com que a obra fique connosco muito depois de ter acabado. Cenas, planos, a mensagem que guarda num casulo de imaginação... Não será também disso que são feitos alguns dos grandes filmes?

O melhor: A originalidade do conceito, a força das imagens e a leitura alegórica.

O pior: Nada a apontar.

Duarte Mata



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