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«La La Land» (Melodia de Amor) por Duarte Mata

Os maiores problemas que afetam o cinema recente são dois e apenas dois: o primeiro, a falta de capacidade de parte da audiência e da crítica no que toca a identificar e saber ver um filme bom, julgando que o mais importante é a história (ou, usando o vernáculo da indústria, “o argumento”), ao invés da maneira de contá-la, ou seja, a encenação, a forma de filmar, enfim, tudo o que faz o cinema ser uma arte, estando ambas as partes conformadas com estilos formatados e de pouca imaginação. Mas há também o segundo, e o mais grave, da parte dos estúdios e daqueles a quem incubem a tarefa de sentar-se na cadeira do realizador. Esse problema é a falta de memória, renegando quem foram os grandes génios do cinema e do legado que deixaram, não fazendo o mínimo esforço em dá-los a conhecer às massas.

Damien Chazelle (Whiplash) sabe de tudo isto e tenta combater ambos os problemas com o seu mais recente La La Land, criando uma autêntica homenagem ao cinema clássico, dentro e fora da vertente musical. Neste seu álbum de recordações incluem-se um travelling a um muro contendo algumas das figuras mais prestigiadas do meio cinematográfico de outrora (Chaplin, Monroe, Brando), a visita à cena do planetário de Fúria de Viver e uma quantidade infindável de posters e referências para diversão do espetador culto (The Killers, Bogart, Ingrid Bergman…).

Filmado, num gesto tradicionalista, em CinemaScope (popularizado na década de 50 e 60, entretanto extinto), La La Land é nostálgico sem ser anacrónico. Apesar de fazer o seu filme com os recursos correntes (extraordinário plano-sequência de abertura), tem o espírito da Era de Ouro através de momentos bravos que parecem vir dessa fábrica de ilusões que já pertenceu a Fred Astaire ou Judy Garland (e que incluem um baile no meio das estrelas, que Minelli só poderia desejar fazer). Chazelle não renega o seu legado, antes coloca-o numa valsa diante dos nossos olhos, neste conto sobre uma aspirante a atriz e um músico de jazz saudoso que tentam estabelecer os seus nomes na Cidade dos Anjos.

Dividido em quatro segmentos, de acordo com as estações do ano, Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) partilham entre si os sonhos e frustrações que vivem, sendo necessário (como é dito a certa altura), moldá-los enquanto se cresce. Porque Chazelle não é otimista, mas sincero, os falhanços são demasiados e a vontade de desistir é muita, ao mesmo tempo que as personagens tentam arranjar espaço para o outro nas suas vidas.

Infelizmente, este também não é o grande filme que nos anda a ser vendido. Nenhuma canção fica na cabeça e a coreografia não tem o apogeu expectável (Gosling não é Gene Kelly). Para além disso, dos quatro segmentos referidos, há um enorme problema com o “Outono”, que se sente uma mera ponte necessária para ligar o júbilo do “Verão” com a mágoa do “Inverno”, tirando um pouco do fôlego energético que o filme até ali continha.

Mas é o final, de partir o coração, que nos fica, onde já nada é dito, mas apenas a música fala. A dor presente nesse momento, tão melancólico e sofrido só merece comparação a outro mestre dos musicais, Jacques Demy, e a sua obra-prima, Os Chapéus-de-Chuva de Cherbourg. Por isso, mesmo que perca o passo em certos momentos, é uma jornada que vale a pena, um pequeno museu de alegrias que passaram e que pedem para não serem olvidadas. Para além de mais, numa época em que os musicais se tornaram ou em telenovelas grotescas desafinadas (Os Miseráveis) ou num aglomerado de videoclips pop lamentáveis (Burlesque), como não admirar o esforço deste “obrigado” sentido?

O melhor: A nostalgia.

O pior: Coreografia desapontante, nenhuma canção memorável e o segmento “Outono”.

Duarte Mata



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