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«Cruzeiro Seixas - As Cartas do Rei Artur» por Hugo Gomes

Será este Cruzeiro Seixas: As Cartas do Rei Artur, o documentário falhado de Mário Cesariny? Falhado, porque o foco da câmara embica para um outro vértice, não do poeta e pintor surrealista que tanto se fala e no qual é referido como uma das mais valiosas prestações portuguesas no campo da arte contemporânea.

Artur Cruzeiro Seixas, o outro artista, possui uma ligação incontornável no percurso emocional e artístico de Cesariny, a câmara de Cláudia Rita Oliveira logo cedo fica seduzida pela sua figura, aquela postura de derrotado, passando ao lado da verdadeira notoriedade, daquela luz que todos os artistas ambicionam chegar. Porém, o "mestre", como é várias vezes apelidado, é um anfitrião afável que deixa à vontade quer o espectador, quer o ensaio documental de Oliveira. A sua ironia vencida contagia o resto. Deixemos então, reféns dessas suas palavras, das memórias enriquecidas pelos escritos trocados entre dois seres, umbilicalmente interligados às suas convenções artísticas, assim como, cada um à sua maneira, na procura de um espaço afectivo que os não julga.

Talvez seja por isso, que é impossível desligar Cesariny de Cruzeiro Seixas, e Cruzeiros Seixas de Cesariny. O testemunho de uma vida no limiar do limbo vivente e o fantasma que encoraja esse mesmo pesar. No seu limite, As Cartas do Rei Artur é um filme sobre a morte de Cesariny contado pelo seu mais intimo amigo … e, porque não … amante. Mas, por sua vez, Cláudia Rita Oliveira direciona a lente, aponta o holofote na sua pessoa e assim, em paralelo com o artista-sombra, seguimos o percurso deste subestimado, "mestre" de nome, porém, não ainda de título. Neste território artístico que é um campo de batalha onde a luta é desigual, Cruzeiro Seixas é dos grandes derrotados. O filme serve-lhe de consolo, de "prémio de participação", criativo na variação do seu paladar.

Todavia, Cruzeiro Seixas, este menosprezo incontável, poderá ter os dias expirados, e na deriva das profecias deste documentário biográfico e memorial, o pintor surrealista poderá por fim conhecer esse afortunado destino. Aliás, ele é a grande alma deste projecto, a sua personalidade é a narrativa condutora, a sua grandiloquência converte e atira Cláudia Rita Oliveira para segundo plano. Ela não guarda rancor, até porque o filme existe sob um signo apenas - o signo de um Rei Artur. 

Hugo Gomes



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