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«Loving» por Hugo Gomes

loving3 h 2016

Nos últimos tempos, temos constatando que os EUA não têm sido (nem hoje são), o país detentor da liberdade, igualdade e oportunidades que muitas vezes tem sido descrito. A discriminação racial continua ainda a ser um dos grandes problemas dessa mesma nação e a luta contra ela tem ganho uma relevante voz nos tempos recentes, provavelmente face a um antagonista de peso, Donald Trump, que demonstrou que os EUA ainda não haviam superado esse racismo intrínseco. 
 
Em paralelo, surgiu a campanha #OscarsSoWhite, um boicote ativista contra a ausência de atores negros entre os nomeados em tais cobiçados prémios norte-americanos. Tal funcionou como uma reflexão à falta de diversidade no cinema de Hollywood, assim como branqueamento que tem atingido inúmeras produções. Entretanto, muitas outras produções foram feitas nos últimos anos que visaram e desvendaram histórias malditas de um país cujo maior tesouro é a Constituição Nacional. Entre essas produções, que tem como principal intuito “abanar” consciências, surge Loving, a nova obra de Jeff Nichols que estreou no mesmo ano em que este havia apostado num embrião de ficção cientifica à la Steven Spielberg, Midnight Special (que por cá conheceu a luz do dia através do circuito direct-to-video [ler crítica]). 
 
A seguir a passos desse artesão de histórias norte-americano, Nichols, mais conhecido por obras como Histórias de Caçadeiras [ler crítica] e Procurem Abrigo [ler crítica], descortina ao espetador um curioso facto histórico, porém, infeliz, de uns EUA marginal, longe dos feitos heroicos e humanitários - a América onde a oportunidade é para alguns, e esses alguns os verdadeiros privilegiados. Trata-se da história de Richard e Mildred Loving, o Romeu e Julieta da década de 50, onde a verdadeira barreira para a concretização das suas paixões é a nível judicial. 
 
No estado de Virgínia, durante esse tempo, era proibido qualquer união entre raças, uma lei, como pode ser vista no filme, que anexou-se a um prolongado julgamento, a luta de quem desejava acima de tudo viver (e conviver) com a sua cara-metade. Obviamente o objetivo deste casal não era o do mero ativismo, mas sim a requisitada normalidade na sua vida matrimonial, um feito que para Jeff Nichols e todos os interessados é um statment sociópolitico, que exibe duas contradições acerca desta “brilhante” nação. A primeira era que a Guerra Civil não terminou, estando ainda residida a pequenos confrontos na sociedade e que, para um país que se auto-intitula livre, uma governação semi-independente dos estados não era necessariamente um veículo político mais viável (mas o contrário também não seria). 
 
Loving, é assim, mais uma obra sobre a verdadeira distopia, não daquelas agregadas a ficções cientificas, mas à nossa História, um passado bem presente, e um presente antiquado para aqueles que vivem na atualidade. Mas por mais boas intenções que exista, tal não justifica um filme, Jeff Nichols desmereceu-se perante tal dramático enredo (talvez os factos verídicos não sejam a sua praia”), sendo que a vitalidade anteriormente apresentada é desvanecida em conformidade com um ensaio académico de cinema formalista. 
 
É o tipo de produção que de certo irá integrar entre os nomeados ao Óscar deste ano, mas infelizmente é um filme que funciona graças a uma “fantástica” intriga por trás dos bastidores, e claro, pelos rigorosos desempenhos de Joel Edgerton e a surpresa de Ruth Negga, a grande aposta para a categoria de Melhor Atriz.   
 
 
O melhor - Os desempenhos
O pior - é um produto academista e vincado no formalismo narrativo, com uma histórias destas poderia-se ter apostado mais na maleabilidade da linguagem cinematográfica.
 
 
Hugo Gomes
 


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