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«Spectre» por Hugo Gomes

 

Para sermos sinceros ninguém pedia outro episódio da dinastia de Daniel Craig como o mais célebre dos agentes secretos. Skyfall, por si, já encerrava este ciclo "bondiano", mas visto que o legado teria que ser continuado (os direitos devem ser revigorados) e o ator não estava a fim de deixar a sua herança, Spectre surge-nos como mais um evento cinematográfico que a personagem criada inicialmente por Ian Fleming convertera na dita indústria. Mas a questão é percebermos o quanto relevante pode se tornar este novo capítulo. Nesse sentido compreendemos que, quando mais "escavamos" sobre o passado de James Bond e cometamos o seu existencialismo como também fragilidade, injetado desde 2006 com influências óbvias a uma outra importante saga de ação (Bourne), a figura imortalizada parece perder a sua pureza como o mais clássico dos super-heróis para dar lugar à transparência ... e à "humanidade".

Novamente sob a direção de Sam Mendes, que entregou a personagem ao seu formato mais elegante e sério (Skyfall), o filme arranca com as plenas comemorações do Dia de los Muertos, no México, um evento que soa como banalidade no cinema de entretenimento, mas que adquire aqui, graças a um ambicioso plano-sequência, uma dimensão de glamour e de excentricidades nunca vistas. Esta é a missão "marginalizada" de James Bond que vai ao encontro do seu passado (outra vez!), enquanto todas as pistas o levam no trilho de uma das mais poderosas organizações globais de cariz antagonista, SPECTRE (Special Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion). Neste preciso momento os "bondofílos" salivam, até porque esta designação representa a "casa-mãe" de todos os megalómanos vilões do franchise, sendo que a eventualidade de "easters eggs" é acima da probabilidade.

Mas, mais interessante que toda esta peregrinação de vingança pessoal levado a cabo por 007, são os bastidores da MI6 levaram um tamanho "arrombo" após os eventos decorridos em Skyfall. Aqui a palavra de ordem é segurança, que segundo o muito politico C (Andrew Scott), rima com vigilância e como tal a perspicuidade total de todas as agências governamentais e de inteligência similares. É a extinção da era da espionagem que o cinema adora romantizar, já "tocada" no êxito de 2012, onde um burocrático M (agora interpretado por Ralph Fiennes) tenta travá-lo com as suas existentes armas.

Esta guerra fora de terreno poderia servir de pano para mais mangas, mas a questão fica, com quase três horas de filme não haveria espaço para explorar tais sugestões? A resposta é clara e evidente à vista de todos, até porque o cinema de entretenimento globalizado, que anseia sobretudo por narrativas rápidas e personagens instintivas, tem o cuidado de ferir susceptibilidades ao menor número de público, e este jogo de "politiquices" e alusões à NSA, aqui sugerido, não tem lugar para conotações aprofundadas. Mesmo que um franchise com cerca de 50 anos traga consigo um poderoso e respeitado selo, politicas governamentais não entra no seu cardápio até porque a saga sempre fora seguida por exemplos eminentes de maniqueismo.

Mas fora desse "podia ser" de Spectre, o que resta nesta fita é todo um conjunto misto de automatismo (não esquecer a tradição dos créditos iniciados, desta vez anexada a uma música completamente anti-climática) e genialidade digna do espectáculo "bondiano", enquanto as "bond girls" (mesmo com a mais velha do lote, Monica Bellucci) e os vilões não trazem consigo qualquer indicio de inovação, é na realização de Sam Mendes que concentramos um especial toque para com uma certa linguagem autoral. Tal como acontecera com Skyfall, o realizador possui um apetite pela luz e pelas sombras, um pretensiosismo a nível técnico e estético que aufere ao filme toda uma delicadeza visual e acima de tudo uma tentativa de devolução de James Bond às sinistralidade.

Contudo, e algo que Daniel Craig havia salientado nas suas recentes, e controversas, entrevistas, é o facto de 007 ainda expor o pouco orgânico que se faz no cinema de acção, isto, num tempo em que o CGI resultou na solução para todo os problemas. Nesse aspecto Spectre continua a surpreender pelas suas cargas calóricas de adrenalina, mas nem tudo tem que funcionar em prol disso. Será desta que damos por encerrado a pasta de Craig como o agente "00", ou iremos adiar o final mais uma vez?

O melhor - o plano de sequência inicial e a elegância trazida por Sam Mendes.
O pior - existe uma tendência de replicar o efeito de Skyfall, porém, o automatismo tomou conta deste episódio.


Hugo Gomes

 



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