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«The Ditch» (A Fossa) por Duarte Mata

 

Por fim estreiam, fora do circuito festivaleiro português, duas das maiores obras premiadas do cineasta chinês Wang Bing, conhecido documentarista com uma obra nem sempre consensual, mas importante no cinema contemporâneo. Curiosamente uma das selecionadas é justamente a única obra de ficção que fez, este A Fossa, baseado na vida dos prisioneiros de um campo de trabalhos forçados no meio do deserto, chamado Jiabiangou, onde eram colocados supostos "ativistas de direita" pelo governo maoista da época de 50.

O estilo de Bing é bastante autoral, entrelaçando planos gerais, imóveis e contendo a personagem enquadrada ao longe no ambiente, com a câmara manual que segue de perto a vida de cada um dos prisioneiros. Com isto o realizador estabelece também o percurso da imparcialidade dos que vêem ao longe à atribulação dos que vivem a miséria. Por isso, Wang Bing é o cineasta mais próximo de Pedro Costa, não na maneira de filmar (Costa é um artesão perfeccionista, ao passo que Bing é um aventureiro radical, filmando sempre sem o processo burocrático que o governo chinês impõe), mas sim na classe social que filma e do alerta das condições deploráveis dos que a humanidade esqueceu. A sucessão de planos é imprevisível e não se sabe se poderemos contar numa cena com monólogos niilistas das personagens alinhadas e expostas graças à enorme profundidade de campo ou impecáveis tracking shots pelo deserto.

No entanto, não deixa de se sentir como obra de alguma lassidão, com uma direcção de actores ainda muito verde, para além de o filme demorar a encontrar o seu rumo, ou antes, a história que quer contar: a primeira parte peca pelas sucessivas tentativas de chocar o espectador, parecendo olhar (esperemos que não) para os retratados como animais com todos os conceitos civilizacionais recalcados. Mas, percebem-se as intenções de Bing. Ratos e vómito como alimento, o canibalismo, uma mulher a desfazer com as mãos sepulturas em busca do seu marido... não, não é sadismo, antes a triste história que o mundo quer esconder e que cineastas como este impedem-no que isso aconteça.

O melhor: A imprevisibilidade da découpage.
O pior: A direcção por vezes frágil dos atores.


Duarte Mata 



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