Menu
RSS

 



«Harmony Lessons» (Lições de Harmonia) por Roni Nunes

As lições do irónico título desta obra de estreia do cineasta Emir Baigazin não vêm propriamente da escola. Ou quando muito, aquilo que se aprende nas aulas de Química tem uma finalidade muito prática para autodefesa, enquanto as leis darwinianas da Biologia demonstram aquilo que está em jogo: os mais fortes sobrevivem. Isto porque o centro da vida dos alunos de uma aldeia do Cazaquistão não é aquilo que ouvem dos professores, mas da violência instituída fora dela.

É neste ambiente extremamente hostil que se movimenta Aslan (Timur Aidarbekov), um pastor criado pela avó que é subitamente vítima de bullying e exclusão. A sua inadaptação social aos poucos se transforma numa assepsia obsessiva e num calculismo vingativo que vai ensaiando em elaboradas interações com insetos, particularmente baratas, e répteis.

As ironias do realizador não se ficam pelo título e abrangem todo um leque de posicionamentos sobre os pilares institucionais do interior do seu país. Sobretudo, a violência e a brutalidade do gangue de garotos muito jovens está em sintonia com as bases da comunidade – o autoritarismo indiferente da escola, o puritanismo normativo do Corão e, mais que tudo, da absoluta e abusiva liberdade com que a polícia atua para solucionar um incidente.

O formalismo de um certo cinema avesso a massivos movimentos de câmaras, bandas sonoras e cortes rápidos continua fortíssimo no Leste da Europa, como vêm demonstrando os filmes que aportam por cá. Com longos planos fixos, alguma fora de campo, pouquíssimo som e uma fotografia dominada pelo branco (da neve e dos interiores), o cineasta constrói um universo fechado e regido pelas suas próprias leis, onde poucas ou nenhumas esperanças são concedidas. No meio deste academismo, Baigazin baralha-se um pouco diante das possibilidades das opções finais, desperdiçando personagens e tornando demasiado ambígua a transformação do protagonista.

O Melhor: as sempre interessantes possibilidades da rigidez formal
O Pior: as soluções


Roni Nunes
(Crítica originalmente publicada durante o Lisbon & Estoril Film Festival)



Deixe um comentário

voltar ao topo

Contactos

Quem Somos

Segue-nos