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«To the Wonder» (A Essência do Amor) por Roni Nunes

Num momento em que o cinema de autor vai também ele, assim como Hollywood, tropeçando nos seus próprios clichés, necessitando urgentemente de se reinventar, nada melhor que este To The Wonder, de Terrence Malick, para mostrar que contemplação e reflexão não têm de sair de planos fixos. Aqui elas surgem do movimento – aliás ininterrupto.

O resultado é uma forma inventiva de contar uma história – recorrendo o mínimo a diálogos explicativos e revelando o máximo através dos gestos, dos olhares e dos planos, panorâmicas e travellings magníficos onde a natureza, algo comum na sua obra, emerge no seu esplendor esmagador. Este enfoque permite uma exploração diversificada e inventiva da música, da narrativa em off, dos ângulos e dos enquadramentos.

Em relação ao tradicional, To The Wonder é refrescante: as histórias de cada personagem são extraídas de pequenas amostras que preenchem o espaço – seja o de uma Europa lindíssima de catedrais, esculturas e mares gélidos, seja nos pôr-do-sol dos confins do Oklahoma. Em sucedâneo, vão compondo uma espécie de poesia ambulante onde atinge-se o arrebatamento pelo poder das imagens. O resultado é um filme que sobrevive de pequenas peças soltas de grande poesia e força intrínseca e que nos seus mais belos momentos chega a lembrar clássicos da desconstrução narrativa como O Último Ano em Marienbad, de Alain Resnais.

Essa fragmentação do discurso gera uma espécie de filme em slides, onde as motivações dos personagens (que aparecem como figuras sem nome) são mais sugeridas do que explicadas e o que interessa são as consequências de dramas que não vemos. Estes falam de paixões onde parece inacreditável que não possam dar certo, cujos falhanços determinam a transitoriedade de tudo diante do cosmos permanente – simbolizado nas árvores, na água, no céu.

Neste sentido, a única diferença em relação ao consagrado A Árvore da Vida é uma história um pouco menos árida é mais degustável e com a sua dimensão metafísica a ocupar um lugar secundário. Apesar disto, esta está lá, através do padre vivido por Javier Bardem – naqueles que são os momentos mais frágeis do filme – já que seus questionamentos existenciais não fogem muito ao lugar-comum nem o levam a maiores transcendências.

Essa história nitidamente com ênfase no visual por vezes torna-se repetitiva, particularmente nas “coreografias” rodopiantes de Olga Kurylenko. No todo, esta é uma bela viagem “em direção à maravilha”.

O melhor: uma estimulante poesia em movimento
O pior: a fragilidade da crise existencial do padre vivido por Javier Bardem


Roni Nunes



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