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«Skyfall» por Roni Nunes


A questão do anacronismo temporal foi a escolhida pelos argumentistas deste “Skyfall” para enquadrar em termos temáticos as habituais peripécias do agente 007 (Daniel Craig, na sua terceira encarnação de James Bond) no ano em que completa 50 anos. Difícil não achá-la pertinente: Ian Fleming criou a sua personagem no tempo da guerra fria, contexto político sob o qual foram realizadas várias das suas adaptações cinematográficas. Como se sabe, o antigo inimigo do Ocidente desapareceu ruidosamente em 1991. Depois disto, novas guerras tomaram forma – mas feitas com outros tipos de recursos, onde a velha espionagem e os seus artefatos engenhosos parecem não ter lugar. Pelo menos é o que sustentam os adversários do departamento de Bond…

Questão do tempo também pertinente para o velho e acabado império britânico, cujas glórias passadas e o valor dos heróis vivos são solenemente lembrados por um poema de Tennyson. Para um não inglês soa um bocado patético, mas sempre dá para lhe dirigir um sorriso condescendente – especialmente quando, após uns tantos percalços, a bandeira inglesa tremula ao vento sobre uma Londres resplandecente… 

E se os herdeiros das glórias passadas têm de resistir, nada melhor que uma “mãe” inspiradora e com uma conduta “exemplar” e simbólica, a desagradável “M”, de Judi Dench – para a qual, em nome do dever, os fins justificam quaisquer meios. Provavelmente nenhum filho derramaria uma lágrima por tal progenitora, a não ser, quem sabe, os filhos órfãos da mãe Thatcher…

Mais um exemplar desta curiosa safra de revitalização dos blockbusters (ou de alguns deles, pelo menos) que adota abordagens autorais, sombrias e que concedem aos seus protagonistas uma dimensão de maior profundidade do que o habitual. O autor escolhido, Sam Mendes, nem sequer é dos melhores – e cujo único verdadeiro serviço prestado à humanidade prende-se ao longínquo “Beleza Americana”, de resto largamente tributário ao génio de Alan Ball

Mas a verdade é que funciona: Mendes apresenta o seu melhor registo desde a sua estreia e, com um filme visualmente “estiloso”, extrai interpretações emocionais dos atores e consegue, de forma geralmente leve, bem mais do que as correrias e tiroteios do costume. A busca por contrapor à ação uma densidade dramática relevante, chega mesmo a conceder um caráter existencial ao espião – cujas buscas das origens e da sua identidade (tema ligado ao nome do filme) o colocam a par de uns tantos exemplares de super-heróis torturados e “profundos” em voga no momento.

A opção não chega a retirar a descontração a 007, mas talvez seja por causa desse caráter mais sisudo que as bond-girls apareçam um tanto esmaecidas – em particular Naomie Harris, bastante insípida. No mais, Javier Bardem, cuja personagem também vai buscar sua vilania nas suas origens, encarna “mais-um-psicopata-com-penteado-muito-esquisito”- ao estilo de “Este País Não É para Velhos”.

Para um filme marcado pelo peso do passado, “Skyfall” não poderia esquecer a auto referência tão comum às sequelas e, entre as piscadelas de olho aos tempos idos, vai espalhando aqui e ali umas tantas piadas divertidas. Todavia, ninguém brinca com paradigmas e identidades: o filme abre literalmente a matar, com uma perseguição alucinante e absurda que deve durar uns 15 minutos e onde 007 é igual a si próprio. 

O Melhor: o entretenimento de cunho “autoral” lá vai dando seus frutos
O Pior: a autopiedade com que os ingleses gostam de se retratar nos seus esforços nacionalistas
 

 
 Roni Nunes
 



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