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«O Beijo no Asfalto»: Trágica consolação, garbosa estreia

Património mais valioso e mais cultuado da história da dramaturgia brasileira, a obra teatral de Nelson Falcão Rodrigues (Recife-PE 1912 - Rio de Janeiro-RJ 1980) renasce nos ecrãs brasileiros na forma de um experimento que mescla ensaio, ficção, documentário e crítica. Há um filme investigativo em cartaz no Brasil hoje que explora as veredas trágicas do universo rodriguiano: chama-se O Beijo do Asfalto e tem o ator Murilo Benício (de Animal Cordial) como seu realizador. Walter Carvalho (Lavoura Arcaica) é seu fotógrafo. Fala de um homem levado à esquadra por ter beijado um sujeito que agonizava à sua frente, clamando por um afago. É um estudo sobre a moral.

Que dói, desde 1961, ouvir Selminha, a Anna Magnani de Nelson Rodrigues, dizer “O beijo do meu marido ainda tem a saliva de outro homem”, não há dúvidas… pelo menos não quando se enfrenta O Beijo no Asfalto, peça-escândalo do dramaturgo que agora, em uma nova versão cinematográfica – a definitiva, até agora – confirma toda a sua vocação para fazer doer. Ventos homofóbicos do presente a fazem atual e perene. Mas o que mais dilacera no deslizamento que Murilo Benício empreendeu desse texto para os ecrãs – em forma de um filme noir com perfume de John Huston -, executado pela primeira vez na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2017 - não é a reflexão homoafetiva e sim uma genealogia da moral rodriguiana. Num dado momento da longa-metragem, a diva Fernanda Montenegro – que foi a Selminha na montagem original, no já citado anos de ‘61, e foi quem encomendou a peça ao Anjo Pornográfico – explica: “o teatro do Nelson é o teatro da culpa”. Na semiologia esboçada pela atriz, e realçada na direção (firme) de Benício, “existe sim busca por redenção nos personagens dele, mas a redenção se dá pela culpa”. Talvez por esse entendimento, o Beijo de Benício raspe uma das mais sólidas camadas do mito da caverna rodriguiana: a perceção do fado brasileiro, a ação de um Destino que se encarna de um colorido local. O fado aqui é a desonra.  

Arandir (Lázaro Ramos) reza para os orixás do Silêncio para preservar seus abismos quietos  É esse o vetor perpétuo que condena Arandir, aqui defendido por Lázaro Ramos de inteligência trágica, falando mais pelos silêncios e pelas falésias de sua face do que por palavras. Arandir está casado há um ano com Selminha (Débora Falabella, em sua mais vulcânica atuação) que vê a sua paz ir pelo ralo ao atender o derradeiro pedido de um moribundo, atropelado à sua frente: beijar o sujeito na boca. Existe algo por trás de sua ação que só será entendido mais à frente, e isso se nos deixarmos à deriva na maré de ideias estabelecido na edição assinada por Pablo Ribeiro. Como montador, Pablo administra com perfeição os diferentes géneros com os quais a longa dialoga, com o seu visual P&B penumbroso (trunfo do mestre da fotografia, Walter Carvalho). Aquilo que dorme no coração de Arandir dispensa saliva. Verbos, sobretudo os de ação, conjugados no imperativo, cabem mais (e melhor) a seus difamadores, o jornalista Amado Ribeiro (defendido por um Otávio Muller com ares de Doutor Caligari) e o delegado Cunha (Augusto Madeira, numa composição próxima de um naturalismo brutalista). Estes vivem da fala… e da falácia… boquirrotos que são. 

Augusto Madeira, ator que investiga as nossas brutalidades, encarna em Cunha a institucionalização da sordidez  O gesto de clemência de Arandir é testemunhado por seu sogro (Stênio Garcia) e mais adiante divulgado por Amado nas manchetes de A Última Hora, enquanto Cunha usa a tortura para arrancar de Arandir a confissão de uma homossexualidade que não é sua. Cunha só não vislumbra qual é a sua real dívida moral… sua… culpa, como diz Fernanda em uma das intervenções documentais sazonais que arejam a narrativa. Nelas, os atores discutem o texto com Fernanda e com o diretor de teatro Amir Haddad, que nos delinda as (meias) verdades de Nelson. E há nesses trechos registos da interação entre o elenco, como nas conversas entre Débora (que dá a Selminha uma dimensão de Ofélia, a de Hamlet, raras vezes alcançada) e a jovem atriz Luiza Tiso, o achado do filme. A batidas de texto entre os atores que vão, pouco a pouco, virando ficção: saem do jogral e se tornam mimese… vivas.

Nas passagens de ficção, a luz das cenas tem algo de Arthur Edeson, fotógrafo de Huston em The Maltese Falcon (A Relíquia Macabra, 1941), com o qual o filme de Benício conversa frontalmente. A conversa é mais frontal ainda com o noir mais existencial, tipo The Big Sleep (À Beira do Abismo, 1946). E tem elementos aqui e ali de séries de televisão do filão, como The Untouchables (Os Intocáveis), com Robert Stack. Essas referências ou alusões mostram que a escrita de Benício, na direção, dialoga com o tempo do cinema, com a tradição. Sempre houve culpa nas leituras cinematográficas de O Beijo no Asfalto, vide a de Flávio Tambellini pai, feita na década de 1960, e a mais erotizada, a de Bruno Barreto, dos anos 1980. Mas aqui a inquietação não se dá no enredo e sim na linguagem, na busca da grafia rodriguiana. E dele emerge, como um farol de interpretação, uma palavra: “sobreviver”, conjugada na primeira pessoa do plural, para entender o que sobra da moira, do fado, da eterna justiça do teatro, da arte do ator. Belo filme de estreia.



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