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Martin Scorsese: «Os Festivais devem ajudar os filmes que andam sem espaço»

Desde maio, quando foi homenageado na Quinzena dos Realizadores, Martin Scorsese anda muito generoso com os convites dos festivais internacionais para falar da sua obra. Fez isso em Cannes (há seis meses), e voltou a fazê-lo neste domingo, em Marrocos. Um dia depois de ter comandado um tributo ao seu colega de adolescência Robert De Niro, laureado no Festival de Marraquexe com a Estrela de Ouro honorária, o cultuado realizador americano por trás de filmes memoráveis como Goodfellas (Tudo Bons Rapazes, 1990) aproveitou a sua passagem pelo evento para falar sobre sua carreira e as suas angústias audiovisuais.

"Há cifras muito altas em torno de 'Homem-Aranha', 'Batman' e esses super-heróis todos, mas filmes ousados de diferentes países, feitos com pouco dinheiro, andam sem espaço. Festivais como este devem ajudar essas produções a encontrar seu público", disse Scorsese para uma plateia lotada, num debate triangulado por uma dupla de realizadores marroquinos (Laïla Marrakchi e Faouzi Bensaïdi), que durou quase duas horas, com direito a trechos de obras de culto como o seu Casino (1995) e Last Temptation of Christ (A Última Tentação de Cristo, 1988).

Empenhado na finalização do filme de máfia The Irishman, projeto da Netflix com Al Pacino e Robert De Niro, Scorsese abriu o peito em Marraquexe, da mesma forma como fez em Cannes. Ambas as cidades extraíram dele um baú de saudades. "Eu era um menino com asma que não podia correr nem rir muito alto. Numa casa sem livros, os meus pais me levavam ao cinema, para ver o clássicos da Hollywood de 1944, 45. A chegada de uma pequenina televisão em nossa casa mudou as coisas, pois havia um canal de TV só para italianos em Nova Iorque, no qual vi clássicos da Itália como 'Paisà'. Ali, a noção de 'filme estrangeiro' passou a ser bem próxima para mim", disse o cineasta, vencedor do Oscar em 2007, por The Departed: Entre Inimigos, com Jack Nicholson. "Ao trabalhar com ele, havia um ponto da improvisação que precisávamos conhecer bem. É necessário correr atrás dos atores, entender os espaços deles, perceber o quanto há deles nas personagens".

Martin Scorsese na rodagem de The Departed

Festivais gozam do afeto de Scorsese porque foi na Croisette, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu a longa-metragem que garantiu o seu passe para o estrelato: Mean Streets: os Cavaleiros do Asfalto, cuja cópia nova deve voltar ao circuito em 2019, ao menos na França. “Quando trouxe esse filme para Cannes, nos anos ‘70, desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por realizadores como Raoul Walsh, a quem idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o realizador em Cannes, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe é peculiar.

Em Marraquexe, ela se fez valer, ao passo em que ele revisitava os seus velhos exercícios autorais, incluindo o comercialmente malfadado The King of Comedy (O Rei da Comédia, 1983). “A última vez em que estive com Jerry Lewis, com quem filmei ‘O Rei da Comédia’, em 1983, ele já estava com 91 anos, e disse-me algo que bateu forte em mim. Naquela idade, ele ainda pensava em trabalhar e dizia: ‘Se você estiver fazendo um filme, e perceber que o tempo não está bom, algo está errado’. No vocabulário do Jerry, ‘mau tempo’ significava não sentir prazer, não ter foco. Preciso ter foco no que espero contar ao pisar num set. Para isso, desenho. Faço desenhos próximos do que chamam de storyboards de cada elemento de uma cena. Cada luta do ‘Toiro Enraivecido’ foi desenhada”, disse Scorsese, dirigindo-se a uma plateia muda de tamanho encanto, de olhos lacrimejados. 

Já passei momentos difíceis. Cresci num bairro duro, violento, com muita gente ruim e muita gente boa. Eu não sei o que aprendi com os filmes que fiz, mas tive a chance de dominar uma lição: fracassar é ok, desde que levantemos depois. Já vivi ‘tempos maus’ a filmar, mas me dei conta de que faço cinema para compartilhar com as pessoas, referências que aprendi com o cinema e que mudaram a minha vida... uma vida que começou pobre, asmática, numa casa sem livros. A falta de livros e a asma me levaram aos filmes. É a cultura da imagem. Nos anos ‘70, essa cultura produziu realizadores que tinham medo de ver seus projetos extintos pela vaidade de um ator. Nos anos ‘80, uma frase de um crítico poderia acabar com um filme. Hoje o problema é o facto de as salas de cinema estarem a desaparecer”.


Jerry Lewis em The King of Comedy

De sexta até agora, a melhor longa metragem apresentada em Marraquexe foi Diane, de Kent Jones. É um trabalho memorável de Mary Kay Place. Estrela da TV desde os anos ‘70, vencedora de um Emmy, ela se reinventa como atriz neste drama existencial dirigido pelo curador do Festival de Nova Iorque, centrado numa viúva de 70 em reciclagem afetiva. Nesta segunda-feira, a competição pela Estrela de Ouro de Marraquexe segue com duas realizadoras pautadas pela sutileza: Lila Avilés, do México, faz uma análise de luta de classes num hotel com La Camarista, e Sakaya Kai, do Japão, investe no suspense em Red Snow, no qual investiga o desaparecimento de um menino. Até sexta, o júri encabeçado pelo realizador James Gray (Lost City of Z) tem filme para assistir, escolhendo os vencedores no sábado, quando o festival terminar.

Hoje, Marraquexe confere, em projeção hors-concours (fora de concurso) o esperado ROMA, obra que deu ao mexicano Alfonso Cuarón o Leão de Ouro em Veneza. Feito com a grife Netflix, para fazer carreira no canal de streaming da web, este drama em P&B sobre a desestruturação de uma família de classe média do México na década de ‘70 vai ter exibição em grande ecrã por aqui, ampliando a sua campanha para o Oscar.



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