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BFI: Brilho argentino em solo inglês

Lorenzo Ferro em El Ángel

Alguns filmes latino-americanos de muito respeito como Tarde para Morir Joven, de Dominga Sotomayor (radiografia das feridas chilenas, produzida pelo brasileiro Rodrigo Teixeira), e o colombiano Pajaros de Verano, de Cristina Gallego e Ciro Guerra, desafiam as convenções narrativas no BFI – London Film Festival, que hoje caiu de amor por um badalado representante das estéticas mais populares da Argentina nos grandes ecrãs. A terça foi dia de El Ángel, um fenómeno em Cannes, que foi escolhido pela Argentina como seu potencial concorrente ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. A realização pertence a Luiz Ortega, que viu a sua longa-metragem a ser comparada com Cidade de Deus (2002), o sucesso brasileiro responsável pela génese do filão favela movie, pela reconstituição dos feitos de um temido bandido dos anos 1970.

A boa repercussão de El Ángel em Londres – depois de todo o bom buzz que o filme fez na Croisette - comprova a diversidade de géneros que hoje retiram a produção dos argentinos da estância da política e do existencialismo, com cores que vão além da paleta hollywoodiana, com temperos portenhos.

Em Hollywood, em geral, dinheiro e amor são as razões que levam personagens de boa índole a enfrentar o pior de si, ao contrário do que acontece no cinema da Argentina: em Buenos Aires, atualmente, existe quem aplauda, com ardor, um thriller chamado Animal, de Armando Bo, no qual Guillermo Francella é capaz de tudo por... um rim. “Se a gente fosse feliz por aqui, não faríamos o cinema que fazemos hoje”, disse Luís Ortega ao C7nema, na passagem de El Ángel em Cannes.

A sua obra é centrada nos crimes do Anjo, ou melhor, de Carlos Eduardo Robledo Puch, adolescente que, entre 1971 e 72, acumulou dezenas de roubos e um punhado de assassinatos, em nome do prazer, e não da necessidade. “Este filme é mais um estudo de caso do que a construção de um arquétipo universal. O caso de Robledo não pode ser visto como um sintoma nacional ou geracional. A riqueza do seu caso está em toda a sua complexidade psicológica”, disse Ortega.

Teatro de Guerra (Lola Arias, 2018)

Nas searas competitivas do BFI, há uma disputa pelo Prémio Grierson de Melhor Documentário, e, nela, o concorrente mais bem falado veio da exatamente da Argentina: Teatro de guerra. Na obra deparamos com Lola Arias a resolver as feridas ainda abertas da Guerra das Malvinas. Também existe uma claque organizada em prol da vitória do charmoso L’époque, de Matthieu Bareyre, sobre formas de militância política na vida noturna de uma Paris de enorme miscigenação cultural. Entre os documentários do Reino Unido, o mais potente (em concurso) é The Plan That Came From The Bottom Up, de Steve Sprung. Aí, o cineasta revisita um plano económico aplicado na Europa da década de ‘70 para evitar o desemprego em massa no Velho Mundo. Mas Lola é quem tem os melhores e os mais entusiasmados apoiantes.

Depois de sete dias de programação, o BFI London Film Festival já não possui dúvidas algumas sobre a força do cinema argentino no trânsito com as cartilhas de género. Por isso, o evento olha com expectativa para o que vem deles ... Para os próximos meses, os argentinos já têm engatilhado o regresso aos cinemas do seu mais popular oscarizado, Juan José Campanella. O coroado em Hollywood está a finalizar, a todo vapor, Las Comadrejas, rodado em Domselaar, uma cidadezinha de 2,4 mil habitantes situado a Leste de Buenos Aires. Com toques de humor negro, a produção é um remake de uma obra de 1976 dirigido por José Martínez Suárez, intitulado de Los Muchachos De Antes No Usaban Arsénico.

Este talvez seja o filme argentino mais engenhoso dos últimos 50 anos. Mas teve o infortúnio de ser lançado no meio de um golpe militar nas nossas terras”, disse Campanella à imprensa de sua pátria. “O meu cuidado nessa refilmagem é o de não cair em armadilhas de representação de género, em machismos”.

Los Muchachos de Antes No Usaban Arsénico (José Martínez Suaréz, 1976)

No enredo original de Las comadrejas, uma veterana atriz (Graciela), há tempos desaparecida dos ecrãs e dos palcos, decide vender um casarão onde vive com três homens: o seu marido, o seu médico particular e o seu contador. A venda do imóvel gera nesses homens, que dependem dela para viver, uma insegurança acerca do futuro. A fim de preservarem seu teto, eles inventam planos estapafúrdios para matar a veterana estrela e ficar com a mansão (o imóvel usado para reproduzi-la é um castelo do século XVIII preservado em Domselaar).

O Festival de Londres termina no dia 21, com a entrega dos prémios de Melhor Filme de Ficção, Melhor Documentário e Melhor Primeiro Filme, cujos favoritos, até agora, são, respetivamente, o policial Destroyer, com Nicole Kidman; o já citado Teatro De Guerra, com memórias reais do conflito das Ilhas Malvinas sob a ótica argentina; e o drama Wildlife, que marca a primeira incursão do ator Paul Dano na realização. A atração de encerramento é Stan & Ollie, de Jon S. Baird, sobre os feitos da dupla O Bucha e O Estica, interpretada por John C. Reilly (como Oliver Hardy) e Steve Coogan (como Stan Laurel).



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