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«Diamantino» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Gabriel Abrantes (sob aliança com Daniel Schmidt) chega por fim ao universo das longas com uma fábula tramada de um futebolista prodígio que certo dia adquire consciência do seu redor. Eis Diamantino, filmes-paródia cujas rábulas caricaturais servem de espelho para a cada vez mais quebradiça sensibilidade europeia.

O jovem realizador virou do dia para a noite num astro da curta-metragem portuguesa, que sob esse mesmo formato concretizou algumas das mais invulgares produções do Cinema Português. Improviso e criatividade são dois elementos certos na sua filmografia, requintada com um humor burlesco e sob um ponto de vista satírico, e este Diamantino não é exceção, preservando todas essas mesmas convicções. É um OVNI, um objeto verdadeiramente insertado num conceito de luso-futurismo (se não existe tal definição, deveria existir) que esclarece a iniciativa da dupla.

Contudo, não é preciso pensar muito para se perceber donde veio a inspiração para esta homónima personagem interpretado por Carloto Cota (verdadeiramente impagável). Do visual aos maneirismos e mesmo o dialeto de região autónoma (aqui trocou-se Madeira pelos Açores), assim como o contexto familiar e social, este Cristiano Ronaldo faz-de-conta é mais que uma mera caricatura para fins de jubilo inconsequente ou do alvo preciso à sua figura, é antes disso um atalho que nos levará a uma reflexão à nossa condição enquanto europeu.

Até porque Diamantino [a personagem], o Midas nas quatro linhas perde o seu dom de jogar quanto reconhece que o Mundo não gira envolto do seu umbigo, aprendendo a tal lição através de um acidental contacto com refugiados (ou diríamos antes “fugiadinhos”). A partir daí é a sua determinação de encontrar a si próprio, como uma Europa em crise existencial, ingénua e receosa por medos irracionais. A personagem, a anterior sombra distorcida do craque, é a alusão direta do Velho Mundo, perdido em partidos nacionalistas e solidariedade high moral ground (o privilégio de ser europeu). Pelo meio, encontramos anedotas sob o formato de propagandas quase orwellianas e da metamorfose simbólica do seu personagem/continente, lavados por contornos fabulistas como é o caso das malvadas irmãs “cinderelescas” (as gémeas Anabela e Margarida Moreira).

Gabriel Abrantes apodera-se de um filme in loco, rebuscado por natureza, acidamente incorporado num humor capaz, por vezes onírico, e para isso cruza a imagem real com as manipulações tecnológicas, entre o CGI e os efeitos práticos, elementos por si tão próprios do seu trabalho nas curtas (em especial atenção para os seus Humores Artificiais e o segmento Freud and Friends do coletivo Aqui em Lisboa).

Contudo, a loucura faz-se em pequenas doses, quase desconjurado devido a um ritmo desequilibrado. A causa? A possível readaptação do formato de longa para alguém conformado com pequenos rascunhos e isso torna Diamantino num sugestivo experimento que por vezes cede à parábola ao invés da sátira ácida. Mas nada que nos faça distrair da confirmação de um dos possíveis grandes nomes do cinema português futuro, que partilha tal como este Diamantino, uma verdadeira crise existencial.

Hugo Gomes

«First Reformed» (No Coração da Escuridão) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Paul Schrader sempre fora estudado como um curioso caso isolado. Cinéfilos de gema e com profundos conhecimentos da natureza cinematográfica, por norma, nunca geram grandes cineastas e o invocado é exemplo disso. Por mais esforços que cometa (até mesmo o próprio admite), será relembrado no fim dos seus dias como o argumentista ao invés da sua carreira a solo, esta diversas vezes subestimada na indústria que insere.

Em todo o caso, Schrader é um “outsider” duma Hollywood que não acredita em si própria, e os seus filmes [dirigidos] são a prova de uma total descrença no sistema como na emanada cinematografia. Contudo, eis que nos chega First Reformed, que diríamos ser o fim de uma dificultada maratona, uma corrida de resistência que culmina uma fadiga constante de um autor dececionante perante os obstáculos que sucedem a (ainda) outros obstáculos. Provavelmente esta é a sua epifania, a desilusão a tomar conta da figura, e esta projetada no destino da Humanidade por via da sua ferramenta mais intima.

Sob o protagonismo envolvente de Ethan Hawke (possivelmente o seu papel mais visceral, inerentemente falando), First Reformed nos leva, como as palavras indica, a passos cuidadosos para uma igreja secular, o travelling de espera na passagem dos créditos iniciais nos transmite um efeito de reconhecimento perante o cenário que servirá mais que template da narrativa, uma aura fantasmagórica, a ponte invisível entre mortal e o divino imortal. Nela, Hawke, um “pároco” (reverendo Ernst Toller) que perdera o seu filho na Guerra, fustigado por uma angustia silenciosa somente tranquilizada pela fé pregada, ou sem rodeios, uma espécie de analgésico espiritual. Mas é ao encontro de um dos seus “cordeiros”, um ambientalista desesperado pela descrença na tão negligenciada humanidade, que Toller despertará para uma nova realidade, um fosso que parece interligar o seu luto que se revolta para com o estado das coisas que o rodeiam.

Por mais referências que encontremos neste espiritualismo mutilador, de Bresson a Ozu (passando por Dryer e Bergman), que transcrevem os planos e os movimentos destas personagens suicidas, é a autorreferência de Schrader que First Reformed triunfa como uma meta atingida. É o Taxi Driver do novo século, inserido num mundo no qual tem que partilhar com os imensos “rebentos” do mundialmente conceituado filme de Martin Scorsese (que o próprio Schrader escreveu). É a estrutura intacta a servir de fortalecimento a este grito de ajuda, tal como a igreja que assume -se como vetor narrativo, é a reconstituição moderna perante um “esqueleto” de outros tempos, assim, First Reformed sob um tremendo ar bafiento de ’70 (não com isto insinuar que o Cinema precisa diariamente de lufadas de ar fresco) ergue-se numa ousadia modernizada.

Enquanto que Taxi Driver  resumia aos grunhos e ao seu ativismo algo anárquico, esta nova chance de Paul Schrader remete-nos ao ativismo dos sábios. Impulsores divergentes, causas percorridas em iguais pisadas. É na descrença que a verdadeira fé é atingida, poderemos contar com isto num filme religioso, mas a crença não se baseia em teologias fundamentalistas, First Reformed olha para o mundo deixado por Taxi Driver, e o atualiza, refletindo-o numa dolorosa agonia. É a politica, sob as agendas anti-trumpistas, fervorosamente renegando outras politizadas tarefas, como o ambientalismo a fugir dos panfletismos Al Gore (possivelmente, e em certa parte, o mais sóbrio dos filmes ecológicos).

Não saindo da temática das causas, First Reformed liberta-se do filme-ficção para endurecer como a causa que Paul Schrader fervelhava no seu negro intimo. E sob o reflexo das suas paralelas criações (First’ e Taxi’), eis a redenção encontrada de um autor que nunca se confirmou (até então).

Atenção, daqui fala um anterior cético (à imagem da descrença absoluta de Ethan Hawke) que, também graças à bênção divinal nos braços de Amanda Seyfried, tornou-se num crente. Devastador e destemido. Existem atualmente poucos filmes assim.

Hugo Gomes

Vem aí filme em torno de Black Widow. Cate Shortland será a realizadora.

Cate Shortland (Lore, Berlin Syndrome) poderá dirigir o filme-a-solo de Black Widow (A Viúva Negra), personagem interpretada por Scarlett Johansson que até então tem sido sobretudo sidekick na série The Avengers. O site Collider confirmou a contratação da realizadora australiana.

Durante anos tem sido discutido a produção de um standlone da personagem, a agente / espiã da S.H.I.E.L.D. que fora introduzido no Universo Partilhado da Marvel em Iron Man 2, mas o projeto ser fora adiado por múltiplas razões (entre as quais o argumento de "figuras de ação de heroínas não serem rentáveis no mercado dos brinquedos").

Jac Schaeffer encontra-se por detrás do argumento, que segundo a The Hollywood Reporter decorrerá em eventos anteriores ao primeiro The Avengers – Os Vingadores, de Joss Whedon. De momento desconhece-se a data de lançamento do filme, tendo em conta que a agenda de Johansson encontra-se demasiado preenchida.

Clássicos franceses em cópias restauradas no Espaço Nimas

  • Publicado em Eventos

Arranca hoje a mostra Cinema Francês - Os Grandes Mestres 1930-1960, um extenso ciclo organizado pela Leopardo Filmes que levará o espectador a conhecer ou a revisitar alguns dos maiores filmes da cinematografia francesa fora os já canónicos Nouvelle Vague.

A iniciativa apresentará no seu total 16 obras-primas, entre os quais alguns inéditos nos cinemas portugueses. Todos eles em cópias restauradas e digitalizadas e legendadas em português. A primeira parte do ciclo contará com quatro obras dispersadas em quatro conceituados cineastas que inspiraram a trupe da Nova Vaga dos anos 60.

Jean-Pierre Melville, “o mais americano dos realizadores franceses”, prova ao mundo o seu fascínio pela “cidade que nunca dorme” em Dois Homens em Manhattan (Deux Hommes Dans Manhattan, 1959), o primeiro filme a ser mostrado, seguido por Georges Franju e o seu Olhos sem Rosto (Les Yeux Sans Visage, 1960), uma ousada fantasia médica sobre um cirurgião que tudo faz para “devolver a face” à sua filha, vitima de um acidente. Jean Renoir, que dispensa apresentações, emana um relato de crime a anteceder os feitos de Hitchcock em O Crime do Sr. Lange (Le Crime de Monsieur Lange, 1936) e por fim, Madame De … (1953), um dos mais belos trabalhos de Max Ophüls.

Esta mostra decorrerá até dia 10 de outubro, no Espaço Nimas em Lisboa.

 

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