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CINECÔA: do Paleolítico às gerações do futuro. O Cinema à "mão de semear"

Vila Nova de Foz Côa recebeu a primeira exibição portuguesa da nova produção de Paulo Branco, Caderno Negro, a adaptação do livro de Camilo Castelo Branco e prequela não assumida de Mistérios de Lisboa, que marca o regresso de Valéria Sarmiento à realização, seis anos depois de As Linhas de Wellington.

Sarmiento concluiu assim um projeto algo intimo, visto que os Mistérios’ foi concretizado pelo falecido marido, o lendário Raoul Ruiz. Mesmo não cumprindo a excelência da obra anterior, O Caderno Negro é o retorno à aristocracia disfarçada e o retrato da face oculta da classe clerical, tendo como pano de fundo um doloroso romance marcado pela distância nos mais diferentes contextos. Com isto, esta nova realização invoca as memórias do projeto anterior e o faz com clareza da sua nostalgia, quase melancolizada neste drama de amores inconformados que conta com uma belíssima Lou de Laâge como protagonista e um Victoria Guerra como Maria Antonieta.

 

Caderno Negro (Valéria Sarmiento, 2018)

A sua anteestreia foi motivo de celebração no CINECÔA, não só pela homenagem ao produtor Paulo Branco, que se juntou na sessão de abertura, mas pelo marcado fim do jejum do festival, de novo no ativo após um ano de ausência. O comeback de um evento desta envergadura no Centro Cultural da cidade serve quase como um tributo às patrimoniais gravuras rupestres situados nas encosta do Rio Côa. O porquê? Porque foi exatamente aqui que há 15.000 anos que nasceu a primeira noção de Cinema. Aqui o homem paleolítico embarcou numa jornada de registo do seu próprio redor e o fez através da composição de imagens. Muitas delas, prescrevendo a primeira sugestão de movimento, por outra definição, as primordiais imagens em movimento. Tornamos o Homo Spectator, o espectador propriamente dito, e milhares anos depois, sentamo-nos em salas de cinema, visualizando e interpretando nós próprios as imagens projetadas.

CINECÔA é essa vénia à Sétima Arte e fá-lo sem as pretensões megalómanas de atingir o estatuto entre os festivais. E fá-lo para a comunidade, e a população tem aqui a chance de encontrar uma seleção de cinema alternativo por vezes ocultado às grandes massas pela sua ausência de marketing. O filme de Paulo Branco é possivelmente o titulo da sua mostra mais avantajado em termos produtivos, mas não nos deixemos enganar, em Foz Côa aposta-se sobretudo na educação cinematográfica desde cedo.

 

Avesso (Francisco Colombo, 2018)

As escolas são convidadas a frequentar as sessões quase exclusivamente preparadas para estas, através de filmes temáticos e pedagógicos ou simplesmente trabalhos iniciados pelos próprios alunos, muitos deles sem qualquer conhecimento a nível de filmologia. Contudo, convém afirmar que é desde pequeno que se torce pepino. O Cinema precisa ser vivido de alguma maneira e, como tal, preza-se estes trabalhos amadores mas afetivos para o seu público fresco, ainda iniciando o seu olhar cinematográfico, dando os primeiros passos para aprender a ver Cinema. E filmes destes, erguidos com a energia jovial, falada na mesma linguagem ao rol de espectadores a que se dirigem, encarregues de trazer consigo o primeiro degrau de uma longa e por vezes resistente escadaria.

E não é só de crianças e jovens que o CINECÔA é feito. Como havia dito, e voltando a frisar, o que vemos é um festival para a população, a bandeja cultural a ser servida num autentico buffet, basta querer.



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